Inovação
Primeiros bezerros geneticamente editados no Brasil
Pesquisa conduzida pela Embrapa Gado de Leite, em parceria com a Associação Brasileira de Angus, busca desenvolver raças mais adaptadas ao calor e às mudanças climáticas

Nasceram no Brasil os primeiros bezerros com edição gênica obtidos a partir de embriões fecundados in vitro — um marco inédito na América Latina. Os animais fazem parte de uma pesquisa conduzida pela Embrapa Gado de Leite, em parceria com a Associação Brasileira de Angus, que busca desenvolver raças mais adaptadas ao calor e às mudanças climáticas. Os resultados iniciais são promissores: dois dos cinco bezerros nascidos, entre o fim de março e o início de abril, apresentam pelagem curta e lisa — característica associada a maior resistência a altas temperaturas.
Ao Agro Estadão, o médico veterinário Luiz Sergio de Almeida Camargo, pesquisador da Embrapa Gado de Leite, explicou que a técnica utilizada foi a CRISPR/Cas9, uma espécie de “tesoura molecular” capaz de promover alterações precisas no DNA. “Otimizamos um método inovador para embriões fecundados in vitro, que, nesta primeira prova de conceito, resultou em 40% de animais nascidos com a característica, sem interferir na qualidade dos embriões nem na gestação.”
Ele destaca que há poucos casos de bovinos geneticamente editados no mundo e que o Brasil pode despontar como referência no uso dessa tecnologia para adaptar raças ao clima tropical.
Produtividade e bem-estar
Camargo explica que a raça Angus é de origem britânica, adaptada a climas frios, e se destaca pela qualidade da carne, precocidade e alto rendimento. No entanto, em regiões mais quentes, os animais sofrem com o estresse térmico — especialmente durante o verão no Sul do Brasil e em áreas tropicais e subtropicais.
“Esse sofrimento tende a se agravar com o aquecimento global previsto, que pode afetar até regiões onde o calor não costuma ser tão intenso. O estresse térmico compromete o bem-estar, prejudicando a fertilidade e o desenvolvimento dos animais Angus.”
Segundo ele, a edição genética da pelagem busca justamente mitigar esse problema. Bezerros com pelos mais curtos dissipam melhor o calor e mantêm a temperatura corporal mais estável. A expectativa é de ganhos relevantes em fertilidade e produtividade em climas quentes, possibilitando a criação extensiva de Angus em regiões tropicais e subtropicais.
Não é transgenia
O pesquisador da Embrapa explica que animais geneticamente editados não são automaticamente classificados como transgênicos. Segundo as normas da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), somente são considerados transgênicos os organismos que recebem genes de outras espécies. Se a edição não envolver a inserção de DNA exógeno, o animal não é enquadrado como transgênico. Cada caso é avaliado individualmente pela CTNBio.
No caso da pesquisa, foi utilizada a técnica CRISPR/Cas9, que vem sendo chamada de “melhoramento genético de precisão”. Com ela, é possível introduzir mutações benéficas diretamente nos embriões, sem necessidade dos cruzamentos tradicionais que exigiriam várias gerações para fixar as características desejadas.
Seleção genética
O projeto focou a edição do gene receptor da prolactina, o que provoca o desenvolvimento de pelos mais curtos e lisos. O diretor executivo da Associação Brasileira de Angus e Ultrablack, Mateus Pivato, explica que o mesmo resultado poderia ser obtido a partir do cruzamento de genes entre algumas espécies, mas isso exigiria mais de 20 gerações. “Por meio da edição gênica, estamos ganhando tempo na seleção”, destaca.
A associação já vinha selecionando animais com pelagem mais curta há mais de 15 anos e foi responsável por fornecer o material genético de touros e fêmeas usado na pesquisa.
“A Associação Brasileira de Angus já trabalha há muito tempo com a seleção de animais de pelo mais curto, que perdem o excesso de pelagem logo no início da primavera. Estamos sempre em busca de animais cada vez mais adaptados ao ambiente”, diz Pivato.
Camargo afirma que o mesmo procedimento utilizado para editar geneticamente animais da raça Angus pode ser adaptado a outras raças bovinas, como a Gir, visando melhorias na qualidade do leite, e a Nelore, com foco em características como maciez e textura da carne. “Mas todos os avanços dependem da identificação de mutações que causem os efeitos fenotípicos desejados.”
Próximos passos
O próximo estágio da pesquisa é verificar os resultados em condições reais de calor e avaliar se a mutação será transmitida aos descendentes. Também será criada uma pequena população de animais editados — chamada de geração fundadora — para disseminar a característica em rebanhos maiores.
“Seguindo essas etapas, creio que entre dois e quatro anos seja possível ter material genético desses animais, ou de seus descendentes, disponível para rebanhos comerciais”, estima Camargo, da Embrapa.
Bioética
Corrigir genes não é uma exclusividade da pecuária. Segundo Salmo Raskin, diretor científico da Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, há pesquisas nos Estados Unidos voltadas à correção de doenças raras em humanos. Mas ele diz que, na pecuária, a edição gênica está mais avançada, por enfrentar menos barreiras éticas. Multiplicar uma característica de valor econômico, por exemplo, não seria aceitável em humanos. “É bem aí que há uma diferença brutal ética do uso desta tecnologia em humanos e em animais.”
Raskin acrescenta que o principal limitador do uso da edição gênica em humanos é o risco de corrigir uma parte errada do material genético, o que pode eliminar uma doença, mas causar outras. Por isso, existe uma regulamentação internacional para terapia gênica que proíbe manipulações em células germinativas, como óvulos e sêmen.
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